sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

BORBULHAS ANGELICAIS



VOCÊ NÃO É QUEM VOCÊ ERA NA SEMANA PASSADA
Luiz Soares das Terras Nordestinas, em 08 de fevereiro de 2013.
Na transição da vida
Caminhamos a passos largos.
Nesta jornada sem fronteiras
Deparamo-nos e encontramos
Muitos tipos e suas asneiras.
Dizem-se na fé
Mas obscura a consciência.
Dizem-se fraternos
Mas repudia a caridade.
Dizem-se amorosos
Mas o gesto é puro egoísmo.
Dizem-se cultos
Mas transborda arrogância.
Dizem-se filhos
Mas renega a sua origem.
Dizem-se livres
Mas se identifica na materialidade.
Dizem-se iluminados
Mas a sua luz é opaca.
Dizem-se libertos
Mas o seu horizonte é limitado.
Dizem-se aprendizes
Mas exercita a sua vaidade.
Dizem-se instrutores
Mas se perde no circo dos horrores.
Dizem-se caridosos
Mas abdica o gesto da elegância.
Dizem-se construtivos
Mas só enxerga o argueiro do outro.
Dizem-se formadores de opinião
Mas se contradiz em cada ocasião.
E assim, nesta balada,
A vida vai deixando cravada
Em tom nada camarada
Os acordes de passos indolentes.
Veja tudo diferente
Seja eficiente
Seja universal como um planeta
Que a todos acolhe, protege,
Alimenta e se faz entender.
Curta, portanto, a arte do renascer!
Abraços fraternos do Luiz Soares.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Música quântica? Osvaldo Pessoa Jr.


Chico Science, em seu “Coco Dub (Afrociberdelia)”, de 1994, anuncia uma “música quântica”:

Cascos, caos, cascos, caos
Imprevisibilidade de comportamento
O leito não linear segue
Pra dentro do universo
Música quântica?





O que seria uma música quântica?

Antes de explorarmos esta questão, vale relembrar que o termo “quântico”, hoje em dia, adquiriu um novo significado. Ele não designa apenas a física que descreve átomos, radiação e estrutura moleculares. Com a difusão do movimento cultural conhecido como “misticismo quântico”, ou “espiritualidade quântica”, que já exploramos em vários textos (veja aqui) , o termo passou a designar qualquer atitude mais mística, em que a espiritualidade individual é vista como se integrando de maneira holista (sem separações) com a espiritualidade mais global. Isso tem levado à valorização de técnicas de autoajuda baseadas no pensamento positivo, o que pode ser chamado de “idealismo”, pois a mente teria o poder de influenciar diretamente a realidade. Nesse novo sentido, “quântico” pode ser definido como um “misticismo holista idealista”.

Assim, se buscarmos na internet a expressão “som quântico”, encontraremos por exemplo o site do Pillai Center para a ciência da mente, que ensina que haveria frequências de sons quânticos, como o “Ah” e o “Ara Kara”, que “movem as energias criativas que se encontram no centro sexual para o centro localizado entre os olhos, a área da glândula pineal”, ou que “resgatam sons primordiais no Universo para criação e manifestação”. Na verdade, tal concepção mística não tem nada a ver com a física quântica, mas se entendermos “quântico” como sinônimo de misticismo holista idealista, então fica clara qual é a concepção do Dr. Pillai.

O termo “quântico” foi adotado pelas correntes místicas para atribuir a essas concepções filosóficas uma pretensa fundamentação científica. Sabemos que essa fundamentação é controvertida, e rejeitada pela maioria dos cientistas, que trabalham na ciência ortodoxa. É importante os espiritualistas quânticos reconhecerem que a questão é controvertida.

Cada um de nós é livre para desenvolver sua visão de mundo, mas quando chega o momento de decidir se vale à pena pagar uns R$32 para adquirir um CD com sons quânticos, sinto-me no dever de esclarecer que os possíveis benefícios dessa técnica meditativa não têm nada a ver com a física quântica. Mas se entendermos “quântico” como “misticismo holista idealista”, então chamar o som “Ah” de quântico deixa de ser um abuso de linguagem.

Deixando de lado, então, o misticismo quântico, vamos tentar imaginar o que poderia ser uma música quântica, que de alguma forma incorporasse aspectos do mundo dos átomos.

Em 1997, Gilberto Gil lançava seu CD “Quanta”, e a letra da canção de mesmo nome mencionava o quantum da física como um “Fragmento infinitésimo, quase que apenas mental”. O grande físico brasileiro Cesar Lattes, da Unicamp, comentou no encarte do CD: “O ‘infinitésimo’ é uma ficção matemática. Quantum é o mínimo de ação (energia x tempo). O Quantum de ação é mais real do que a maioria das grandezas físicas: seu valor não depende do movimento em relação ao observador.”

Em 2003, o músico Jaz Coleman, com a ajuda de seu irmão físico Piers Coleman, compôs a peça “Music of the Quantum”, sem letra, que procurava exprimir musicalmente uma metáfora da dualidade onda-partícula, com um violino representando o som contínuo de uma onda, e um acordeão sendo dedilhado como se o som fossem partículas. A peça também buscava representar a emergência de novas propriedades em sistemas coletivos, ou seja, a passagem de um comportamento simples para um complexo (como o que ocorre com elétrons que se tornam supercondutores):

http://www.emergentuniverse.org/#/music

Seria este um exemplo de música intrinsecamente quântica?

A música é transmitida por ondas sonoras. Por outro lado, a física quântica estabeleceu que toda matéria tem um aspecto de onda. Temos aí uma primeira analogia entre os dois campos.

Mas a teoria quântica afirma mais: na detecção de um objeto microscópico, ocorre transferência de uma quantidade discreta de energia, o quantum. Será que quando escutamos música nós a escutamos em unidades discretas? A sensação do som se baseia no movimento de minúsculos cabelinhos no ouvido interno, e este sinal é finalmente convertido em impulsos eletroquímicos no nervo coclear. Esses impulsos eletroquímicos são *discretizados (mas não na escala quântica), mas nós não percebemos essa discretização, de forma que a percepção que temos do som é basicamente contínua.

Isso sugere uma maneira de simular um som quântico: fazer com que o som seja escutado como notas discretas e bem definidas. Por exemplo, ao se tocar um acorde em um violão, as notas não seriam escutadas em conjunto, mas a cada momento uma única nota soaria. Isso talvez pareça com o som de um xilofone tocado rapidamente, mas sem que duas batidas soem simultaneamente.

Há na música moderna europeia (1949-55) o estilo do pontualismo, em que os tons são tocados um a um, em sucessão, sem a formação de estruturas de muitos tons. O pioneiro neste estilo foi Olivier Messiaen, cujo “Modo de valores e de intensidades” pode ser apreciado e



 
Na pintura, o análogo desse estilo “quantizado” de fazer arte seria o pontilhismo, exemplificado neste detalhe da obra “Parada de circo” (1889) de Georges Seurat (imagem acima)

 Se a música quântica for apenas uma forma de pontualismo musical, então ela não parece ser muito excitante. Dois aspectos de sistemas quânticos poderiam ser incorporados para se tentar construir um estilo de música mais original: (a) a existência de observáveis incompatíveis, como posição e momento linear, ou frequência e tempo; (b) a existência de sistemas emaranhados, estabelecendo correlações especiais entre pares de notas. Mas não imagino como isso poderia criar um pontualismo mais interessante.
Sendo assim, só me resta atribuir um prêmio simbólico à peça que mais se aproxima do ideal de uma música quântica, dentre as que pude pesquisar na web. E o prêmio vai para... “A música quântica do hidrogênio”, uma criação do Akasha Project, composto pelo artista sonoro alemão Barnim Schultze, auxiliado por Hans Cousto, que se baseou no espectro de frequências do átomo de hidrogênio  para gerar notas musicais tocadas individualmente, sobre o fundo de uma “descrição acústica holista”.

Um vídeo dessa peça com belas imagens do artista Vigor Calma encontra-se em:








* Discretização é tornar discreto, ou seja, fazer algo contínuo aparecer em unidades discretas, indivisíveis, como os quanta, ou como os números digitais (0 e 1).

Como saber se estou próximo ou distante de minha essência?






"Cada pequena escolha de vida pode nos aproximar ou nos afastar de nós mesmos"

Imagine que você possua algo de muito valor, um diamante, por exemplo. Imagine por um instante que você o tenha perdido e não faça a menor idéia de onde ou como isso tenha acontecido. Com certeza você ficará chateado e com poucas esperanças de reencontrá-lo.

Agora imagine que você o tenha perdido dentro de seu quarto. Você está absolutamente certo de que, em algum lugar, no seu quarto, está o diamante, à espera de ser encontrado. Por mais que sinta certo desconforto, lá no fundo você tem a certeza de que em algum momento irá encontrá-lo, certo?

Bem, agora, uma vez mais, imagine que esse diamante seja a sua alma, a sua essência, a parte mais sábia e bonita do seu ser. Imagine que esse diamante seja a sua paz, a sua sabedoria, a sua compaixão, a sua capacidade de enfrentar com consciência qualquer desafio que a vida esteja trazendo em sua direção. Todos nós nos perdemos de nós mesmos de vez em quando. Se soubermos onde procurar, tudo ficará bem.

O problema é que muitos de nós estamos há tanto tempo perdidos que já nem nos lembramos direito do que perdemos, muito menos sabemos onde começar a procurar.

Vejo as pessoas vagando sem rumo por aí. Muitas estão tristes, andam pela vida à busca de algo, mas já não se lembram o que buscam. Vão a festas badaladas e voltam com um vazio dentro do peito, trabalham como malucas e o vazio continua lá, dentro delas, aumentando mais e mais. Exageram na comida, na bebida, usam drogas, abusam do sexo, e nada parece preencher o buraco que vai tomando conta de todo o seu ser. Compram de tudo, mas nada parece amenizar aquela sensação que se parece com uma espécie de fome, com a diferença que essa fome não parece vir do corpo.

Ah, se soubessem... Se soubessem que o que procuram sempre esteve e sempre estará dentro delas, como sofreriam menos. Viveriam suas vidas mais tranquilamente, com a certeza de que, a qualquer momento, encontrariam dentro de si mesmas o que quer que estejam sentindo falta em suas vidas. A paz, as respostas, o direcionamento, o amor.

É preciso que encontremos os caminhos que nos conduzem a esse lugar dentro de nós onde mora o nosso ser mais real. Vida alguma pode fazer sentido se estivermos longe de nossa própria essência. Precisamos urgentemente nos tornar o que somos.

Ouça... Ninguém nasce sendo. Nascemos e ainda não nascemos, se é que me compreendem.

O caminho não precisa ser árduo, acredite. Não é preciso escalar as montanhas do Himalaia, não é preciso sofrer dores físicas autoimpostas, aprender a falar uma língua sagrada ou recitar versos em sânscrito.

Basta aprender a escolher, entre tantas possibilidades de vida, aquelas que nos tornam mais inteiros. Aquelas que de certa forma nos levam para dentro da nossa verdade, que fazem nossos olhos brilharem, que abrem nosso peito e nos conectam com o que de melhor existe em nós. Cada pequena escolha de vida pode nos aproximar ou afastar de nós mesmos. Cada evento ao qual comparecemos, cada pessoa com a qual nos relacionamos, os filmes que assistimos, as músicas que ouvimos, os livros que lemos, a forma como escolhemos utilizar nosso tempo... Cada uma dessas escolhas nos aproxima ou nos afasta de nós mesmos. Tente prestar atenção e perceber isso em sua vida.

Como saber se estou próximo ou distante de minha essência?

Não é difícil perceber a diferença.

Quando nos aproximamos de nossa essência nos tornamos mais alegres, mais abertos, mais inteiros, mais sábios. Mais vivos.

Por outro lado, quando escolhemos algo que nos afasta de nossa essência, nos sentimos mais vazios, mais famintos. Frustrados talvez... tristes ou anestesiados.

Para saber melhor escolher, precisamos nos permitir momentos de solidão, porque é lá, no silêncio de tudo, que ouvimos a voz da nossa alma. Quando nos abraçamos por inteiro, quando mergulhamos bem no centro de nosso ser, eis que, inesperadamente, encontramos tudo e todos. Quando escolhemos abraçar a nossa própria alma, mesmo que para isso tenhamos que nos afastar ou contrariar o mundo, acabamos por encontrar dentro de nós todo o Universo. É preciso uma boa dose de coragem para se fazer isso.

Por outro lado, quem covardemente abandona a si mesmo na ânsia de encontrar ou agradar o mundo, acaba por perder-se cada vez mais.

Veja a si mesmo como uma semente, que carrega em seu ventre a perfeição do que pode vir a ser. Cuide dessa semente com carinho, de forma que ela rompa a casca, brote e permita que seu verdadeiro ser possa florescer.

Você é o diamante, e o diamante estará sempre dentro de você. Não há outro lugar onde procurar.



por Patricia Gebrim

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Harmonia oculta (aceitação)







" Quando vamos a uma floresta que não sofreu influência do homem, nossa mente pensante vê apenas desordem e caos ao nosso redor.Ela não é capaz nem mesmo de diferenciar o que é vida (bom ) do que é morte (mau),uma vez que ,por toda parte,a nova

vida cresce a partir da matéria putrefata e em decomposição.

Apenas se nos mantivermos silenciosos o bastante internamente

e o ruído do pensamento ceder é que podemos tomar consciência de que existe uma harmonia oculta ali,uma sacralidade,uma ordem superior em que tudo tem seu lugar perfeito e não poderia ser outra coisa a não ser o que é,da maneira como é."

A mente sente-se mais à vontade num parque paisagístico porque ele foi planejado pelo pensamento não cresceu organicamente.No parque existe uma ordem que a mente é capaz de entender.Na floresta a uma odem imcompreensível que ,para o pensamento ,se parece com o caos.Está além das categorias mentais de bom e mau.Não conseguimos apreendê-la por meio do pensamento.No entanto,podemos senti-la quando deixamos de lado,quando ficamos silenciosos e atentos e não tentando entender e nem explicar.Só então estamos aptos a tomar consciência da sacralidade da floresta.Tão logo sentimos essa harmonia oculta,constatamos que não
 estamos separados dela e , nesse momento,nos tornamos um participante consciente dessa sacralidade.Dessa maneira,a natureza pode nos ajudar a retomar o alinhamento com a unicidade da vida.Esta é a realidade da maior parte das pessoas tão logo alguma coisa é percebida,ela é nomeada,interpretada,comparada com outra qualquer,apreciada,detestada ou chamada de boa ou má pelo eu-fantasma, O EGO.
Essa pessoas são aprisionadas nas formas de pensamento,na consciência do objeto.

trecho do livro "Em comunhão com a vida "


Eckhart Tolle

O Portal da Quietude


A grande viagem do mistério começa na quietude …

Na China, a Tradição Taoísta é também chamada de ‘Tradição do Mistério’. A tradição do mistério é a tradição que busca uma vivência através de uma prática mística que nos conduz a um universo mais profundo. Nesse universo não há limitação, não há linguagem, não há forma, porém, é um universo que abraça todas as linguagens e todas as formas.

Essa vivência, esse caminho, se realiza através do alcance do extremo Vazio e da permanência nesse estado – mesmo que a pessoa esteja em estado de lucidez. Devemos entrar no Vazio da extrema quietude e permanecer nesse estado mesmo que estejamos em atividade. É fácil estar na quietude quando estamos fora da atividade; difícil é estar em atividade e ao mesmo tempo permanecer na quietude. Didaticamente, portanto, é necessário primeiro renunciar a atividade para se poder entrar na quietude e só então retornar a atividade sem perder a quietude que foi conquistada quando estávamos quietos.

Esse é exatamente o processo do efeito da meditação.

O que é a meditação? Fechamos as portas e as janelas, desligamos o telefone e colocamos um aviso de ‘não perturbe’ na porta. O que então acontece? Estamos nos isolando da atividade para entrarmos na quietude. Através do processo da quietude, alcançamos o Vazio. E conquistada a calma da quietude, do vazio, saímos da meditação, voltamos a abrir portas e janelas, religamos o telefone e começamos a trabalhar e a falar com as pessoas. Ainda permanece dentro de nós, no entanto, aquele efeito da quietude que foi conquistado através do isolamento.

Dessa maneira, uma pessoa que encontra diariamente um tempo para se isolar e entrar na meditação, quando volta ao mundo, carregará consigo aquela quietude enquanto exercer suas atividades cotidianas.

Na meditação taoísta chega uma hora em que se atinge uma dimensão onde se encontra um buraquinho. Esse ponto é chamado de Orifício do Mistério ou Portal Negro: uma espécie de buraco negro, onde tudo nasce e onde tudo desaparece.

Para o iniciante, esse efeito não dura tanto tempo.

Para um praticante de nível mais elevado, é possível entrar em meditação e sair dela permanecendo com a mesma calma e quietude até a próxima meditação. Para este, a quietude não é alterada durante o seu dia: algumas horas ele pode passar em quietude, até mesmo uma quietude física. Em outras horas, ele estará trabalhando, conversando, agindo e seu corpo físico também estará agindo, mas ele terá sempre a mente quieta. Sua mente é igualmente quieta durante a meditação ou fora dela. Se houver alguma oscilação, será mínima.

Como se faz essa entrada na quietude? Através do alcance do extremo Vazio. Esse extremo vazio é o sublime Vazio que abrange todas as coisas, é o próprio Absoluto, o próprio zero da matemática.

É permanecendo na quietude da extrema quietude, da sublime quietude, que a pessoa consegue se realizar.

Nós encontramos no universo uma enorme diversidade de coisas: o homem, o cavalo e outros seres vivos; as pedras, montanhas, vulcões, rios, o sol… Todos se manifestam simultaneamente no universo, cada um à sua maneira de expressão, num estágio, numa dimensão, com uma característica própria. Em todas as coisas existe a raiz primordial que é comum a todos que estão em manifestação e que também têm o seu momento de repouso.

É exatamente através do processo de repouso que se retorna à raiz. Quando todos os animais estão dormindo, voltam a entrar no silêncio, que é o silêncio de todos os seres. O silêncio de um cachorrinho dormindo é o mesmo silêncio de um homem dormindo. Nessa hora, todos os seres voltam à suas raízes, à raiz do seu ser. O silêncio de um homem vivo e que não está pensando é o mesmo silêncio do homem que já morreu e não está pensando.

O silêncio desse nosso mundo, dessa nossa dimensão, é o mesmo silêncio do outro mundo, de outra dimensão. Nosso universo possui infinitas dimensões que se interpenetram umas nas outras. O silêncio de todas as dimensões é o mesmo silêncio. O Vazio de todas as dimensões é o mesmo Vazio. A quietude de todas as dimensões é a mesma Quietude.

Isso é o que Lao Zi chama de “raiz de todas os seres”: o princípio inicial que é o Tao latente que gera e permite a manifestação de todas as coisas.

Como retornar à raiz? Na meditação taoísta, por meio de um processo de meditação profunda, quando se atinge quando o nível que é chamado de fixação – quando não mais se tem respiração, pulsação ou pensamento – chega uma hora em que se atinge uma dimensão onde se encontra um buraquinho. Esse ponto é chamado de Orifício do Mistério ou Portal Negro. Ambos significam aquele buraquinho por onde surge o universo e por onde desaparece o universo: uma espécie de buraco negro, onde tudo nasce e onde tudo desaparece.

Na técnica da meditação taoísta o espírito (mente/consciência) está unido ao sopro (ar/energia), o sopro segura a consciência e a energia vai conduzindo a consciência até uma “espaçonave” que entra dentro de um buraquinho, onde exatamente nasce, inicia e termina todo o universo. Nesse ponto iniciamos nosso mergulho no mistério.

Essa grande viagem é a viagem do mistério. Como entrar nessa viagem?

Através do extremo vazio e da extrema quietude todos os seres podem retornar ao princípio.

Apesar da personalidade, da cultura, da raça, da característica pessoal, apesar de tudo, cada um pode retornar à raiz; o regresso à raiz se chama quietude e a quietude se chama retornar a viver. A pessoa volta a viver o infinito, a vida infinita que volta ao Vazio e passa a abraçar o universo inteiro dentro de si.

A meditação é fundamental para alcançar a quietude, ela é parte essencial do conhecimento, mesmo sendo o mais simples de todos os conhecimentos. No Taoísmo, os mais altos níveis de técnica são os mais simples. O sublime Tao está no Vazio, na quietude, na simplicidade.

A prática da meditação é o exercício que faz com que nós – pelo menos por 10 a 15 minutos – fiquemos sem fazer nada. Nos sentamos no silêncio, sem pensarmos em nada , nem em coisas alegres nem em coisas tristes. Apenas ficamos no silêncio para acostumarmos a ter esse silêncio dentro de nós. Com a prática, ficamos mais calmos, mais relaxados, nossa saúde física e psíquica melhora. E percebemos que esse silêncio se instala paralelamente ao nosso trabalho, às nossas conversas com pessoas. E aprendemos a não perder tempo com as coisas, aprendemos a não compreender as coisas de uma maneira errada ou ilusória e aprendemos a não criar expectativas irreais. Com a visão mais clara, temos mais lucidez, menos desgastes emocionais e geramos uma roda positiva de vida, sem ilusões.

Todos nós podemos ficar um minuto em silêncio e nesse silêncio, tentarmos encontrar a quietude, a calma. Todos entendemos o que é o silêncio. E se entendemos é por que ele existe dentro de nós.

Mestre Wu Jyh Cherng, Sacerdote Taoísta, foi fundador da Sociedade Taoísta do Brasil

Onde Mora a Sabedoria


Muitas pessoas estão sendo levadas em uma grande busca espiritual. Isto sempre existiu na história da humanidade, mas desde o século XX o fenômeno se intensificou consideravelmente.

Levar uma vida normal, com família, carreira e lazer, já não é mais o suficiente para muitas pessoas. Elas almejam algo mais, o preenchimento de um vazio existencial que elas mesmas não sabem o que pode ser.

Esta é a ação invisível do ímã da espiritualidade. Quando nós atingimos determinado grau de desenvolvimento espiritual, as necessidades normais não são suficientes e necessitamos de um “algo mais”.

Mas ninguém sabe, logo de saída, o que é este “algo mais”. Perdidos, vagam por vários caminhos e lugares em busca do preenchimento de suas vidas. Sem destino, buscam tradições antigas, de todas as formas e matizes, procurando a que realmente se encaixe em seus anseios. Levados por uma necessidade febril, perambulam por todo o mundo procurando a sabedoria em países exóticos e distantes como Tibete, China, Índia, Japão. Procuram a sabedoria na fria altitude dos Himalaias, em tribos aborígenes da Austrália, nos Xamãs de ilhas do Pacífico. Percorrem livrarias em busca de antigos tratados e muitas vezes se submetem a estudos exaustivos, com resultados duvidosos. Andam o mundo todo e muitas vezes não encontram o que procuram. Então, com freqüência, misturam crenças, sistemas e métodos ao seu bel-prazer tentando moldar a sua própria Verdade pessoal. Neste processo não é incomum que ocorram tragédias, ao se misturarem técnicas incompatíveis que apenas iludem a pessoa enquanto destroem sua vida. Ou acabam nas mãos de pilantras que vendem caro sua própria ignorância.

Mas onde mora a sabedoria? Onde podemos preencher nosso vazio interior que nos desequilibra e tira a satisfação de todas as coisas? A resposta é extremamente simples, como simples é a verdadeira sabedoria: em seu próprio interior.

A primeira coisa que todos percebem quando encontram a Verdade é que ela esteve diante de seus olhos o tempo todo. Estamos todos imersos na Verdade Universal, como os peixes estão imersos em água. Apenas não a enxergamos. E a forma mais direta de se encontrar esta Verdade é olhar para nosso interior.

As Tradições Antigas sempre falam muito sobre reflexão, meditação, contemplação e outras técnicas de auto-reflexão. A razão para isto é que ao nos voltarmos para nosso próprio interior contemplamos a grande sabedoria do Universo da mesma forma como o faríamos no mundo exterior. É um conceito conhecido nos círculos internos da sabedoria que o macrocosmo se reflete no microcosmo, ou seja, todo o conhecimento que existe em todo o universo exterior se encontra também em nosso interior. Tanto faz ir estudar em um mosteiro no Tibete como meditar no quartinho dos fundos de sua casa. O resultado será o mesmo.

Neste século XX as grandes escolas de conhecimento se espalharam pela Terra e hoje temos práticas e técnicas acessíveis em todos os países do mundo. Através destas técnicas podemos atingir a sabedoria dentro de nós mesmos, não importa onde estejamos. Visitar os lugares sagrados é sempre uma atividade importante e útil. Mas visitar nosso Templo Interior é o caminho mais correto para a libertação final e o preenchimento de nossas vidas com a Verdade.


Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Acupuntor, Terapeuta e Escritor,

Iluminação é Perda


Muitas pessoas buscam a iluminação, a suprema experiência da existência humana, mas geralmente a procuram no lugar errado, acumulando conhecimentos e informações.

“Iluminar-se” significa sair das trevas da ignorância em direção à Verdade Universal, vendo o mundo como ele realmente é e não como parece através do véu de preconceitos, limitações e enganos a que estamos sujeitos como seres humanos.

O que percebemos cotidianamente é um conjunto de informações limitadas, que não condizem com a realidade autêntica do Universo. Estas limitações são inerentes à nossa natureza e o ser humano, cedo ou tarde, começa a buscar um “algo mais”. No início de nossa evolução somos quase animais, nos preocupando apenas com o básico de nossos instintos primitivos como comer, dormir e procriar. Muitos seres humanos ainda existem neste patamar evolutivo, pois todas as escalas evolutivas coexistem ao mesmo tempo em nosso planeta. Aos poucos começa-se a se interessar por coisas mais elevadas, mais sofisticadas, e a evolução começa a se processar em direção à libertação de nossas limitações, conhecida popularmente como “iluminação”. Segundo a tradição hindu este processo demora um milhão de anos em sucessivas encarnações. Entretanto, grandes Mestres Espirituais como Lao-Tsé, Buda e Jesus surgem periodicamente para fornecer conhecimentos e dar dicas para que as pessoas possam acelerar seu desenvolvimento.

Mas estes conhecimentos e todos os demais não são o fator mais importante na busca pela Iluminação. O despertar espiritual vem da perda, e não do acréscimo. O conhecimento é útil para direcionar nossos esforços mas ele, sozinho, não nos leva à suprema libertação.

Uma pessoa iluminada, que enxerga o Universo como ele existe realmente, transcende a noção comum do conhecimento. O raciocínio lógico e linear não nos leva até onde desejamos, embora seja importante em algumas etapas do caminho. Para atingirmos nossa meta devemos transcender o mero intelecto, deixar de “saber” para “ser”, e assim mergulhar definitivamente no Infinito.

O conhecimento é um barco que se usa para atravessar o rio e se descarta ao chegar ao outro lado. Muitas pessoas se acostumam com o barco e se negam a sair, achando que o Universo se limita a ele. É onde grande parte dos buscadores tropeça e patina. Outras pessoas desembarcam, mas teimam em carregar o barco nas costas!

O processo final de Iluminação é uma simplificação, uma redução gradual de nosso ser, no qual retiramos tudo o que não faz parte de nossa essência, como os medos, as inseguranças, as ilusões, os preconceitos, os desejos. Depois de tudo removido o espírito brilhará com toda a sua luz pois somos todos naturalmente iluminados. Nossas “cascas” não nos permitem perceber isto e retirar estas “cascas” é o que se chama “trilhar o Caminho”. Simplificar cada vez mais é rumar para nosso destino. Devemos perder o que pensamos que somos para poder encontrar o que realmente somos.

Perder tudo para ganhar tudo, esta é a lei.


Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Acupuntor, Terapeuta e Escritor